Entrevista #20 - com Os Velhos


Os Velhos

Portugal - Lisboa
www.myspace.com/osvelhos



Whisper - Tendo em conta as vossas idades, expliquem-nos de onde veio o nome Os Velhos.
Os Velhos - Depois do nosso primeiro ensaio, o Vasco, irmão do Francisco, teve uma visão em sonhos na qual a nossa banda, na altura sem nome, se chamava Os Velhos. Pelo sim, pelo não, decidimos adoptar.

W - O que vos levou a criarem um álbum como "Velhos"? Era algo que já tinham planeado há muito tempo?
OV - Desde há uns anos que andamos a fazer canções. Acreditamos que as canções são uma maneira potente de dizer coisas, por isso temos uma vontade grande de fazer canções nossas. Em 2009 surgiu a oportunidade de editarmos as primeiras canções em formato de EP e a gravação do disco foi o passo seguinte, muito mais controlado e intencional. A nossa vontade de gravar as canções que andámos a fazer e a oportunidade de o fazer com apoio da Amor Fúria e da Valentim de Carvalhos fizeram com que acontecesse agora.

W - O que marca este vosso primeiro trabalho? Quais as suas influências e referências?
OV - Este disco tem as nossas canções, tocadas e gravadas da maneira que achámos mais adequada. Quanto às referências, não pretendemos que se oiça mais do que nós no disco, mas talvez faça sentido falar de bandas e músicos que são importantes para nós, como os Ramones, os Velvet Underground, The Band, o Alfredo Marceneiro, os Strokes, os Lacraus, os National, o Halloween e os Rolling Stones

W - Como se deu a produção do álbum?
OV - O disco foi gravado pelo José Fortes, que muito amavelmente trouxe o seu equipamento e nos acompanhou à casa em Évora para onde vamos tocar muitas vezes aos fins-de-semana. Tirámos as loiças e a mesa da casa de jantar e montámos lá os instrumentos e microfones. O José e o Manuel Fúria, que foi o produtor, ficaram na sala, onde se fez uma régie. Tocámos as canções como costumamos tocar e em casa, como queríamos.

W - Que impacto gostariam de ter na musica portuguesa? É algo que vos preocupa e vos move?
OV - Não há muitas coisas na música portuguesa que nos interessem, mas as que nos interessam, apesar de, em alguns dos casos, estarem distantes do som do nosso disco (são do fado, do hip hop), são muito importantes para nós. Não sabemos até que ponto isto entra nas nossas canções, mas também não é isso que nos preocupa. Também não nos preocupa o impacto imediato que temos. O que nos preocupa é fazer e tocar canções da forma mais sincera que conseguimos e deixá-las disponíveis para que outros as ouçam.

W - O rock nacional cantado em português actualmente apresenta uma grande força e dimensão no nosso país. Isso dá-vos um maior sentido de responsabilidade e pressão para fazerem com que a banda se destaque entre as outras?
OV - Não. O nosso objectivo não é que a nossa banda se destaque entre as outras. O nosso objectivo é fazer canções que acreditemos que são boas e tocá-las e gravá-las da maneira que acreditamos que é a melhor. O sentido de responsabilidade que temos vem da nossa consciência e não de uma circunstância que, na sua maior parte, nos interessa pouco.

W - Como têm sido a aceitação do público?
OV - Temos dado alguns concertos e tido algumas boas reacções de várias pessoas, e isso deixa-nos contentes. Por isso, a aceitação parece estar a ser boa.

W - Vocês irão marcar presença no Festival Alive! no dia 6 de Julho, no Palco Optimus Clubbing. Vêem isso como uma boa oportunidade para se darem a conhecer?
OS - Sim. É um concerto em que vamos tocar com a mesma força que tocamos nos outros, que é aquela que temos e conseguimos usar, mas provavelmente há uma probabilidade maior de aparecerem pessoas que ainda não nos ouviram, o que é bom.

W - Quais serão os próximo "passos" d'Os Velhos?
OV - Para já, esperamos andar por aí a tocar as canções do disco para quem as queira ouvir, mas temos vontade de continuar a fazer canções.

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Entrevista #19- com Tiago Xavier


Tiago Xavier
Aveiro - Lisboa

www.tiagumos.com



Tiago Xavier é um fotógrafo nacional
de grandes paixões dentro da arte. Conheça um pouco
melhor este artista que conta com um portfólio recheado
de grandes projectos e alguns nomes sonantes.



Whisper - Como surgiu o seu interesse pela fotografia?
Tiago Xavier - Desde muito cedo, que me lembre, sempre tive uma grande paixão pelas artes e culto da imagem. Tudo começou com o desenho, evoluiu para um percurso académico de design gráfico e pelo meio com a facilidade que o meio digital trouxe em acesso e à prática da fotografia fiz de minha companhia uma câmara que não dispenso para onde quer que vá. De início servia para uma documentação biográfica do que ia acontecendo na minha vida, mais tarde comecei a interessar-me por criar e produzir imagens encenadas, convidando amigos para pousar.

W - Como foi o início da experiência como fotógrafo e o processo de aprendizagem?
TX - Comecei por integrar a fotografia nos primeiros trabalhos de vídeo e design que fiz a nível profissional (ainda durante os tempos de estudante). Com o tempo e durante o percurso académico senti que a fotografia dava-me mais gozo e sentia-me mais desafiado em resolver os trabalhos com imagens. Houve então uma necessidade de aprofundar conhecimentos e ganhar mais experiência. Na altura não me identifiquei com nenhum curso de fotografia, pelo menos por cá. Como tantos outros que admiro e já com grandes carreiras na área, parti para uma aprendizagem por meios próprios, na base da leitura, ver muita coisa (boa) e principalmente experimentando muito. Estando já nesta fase a trabalhar dentro deste mundo competitivo ganhei mais estímulo para aperfeiçoar esta arte. O percurso é ainda muito longo para tudo o que quero aprender e dominar.

W - Quais são suas principais influências nesta área?
TX - Sou bastante influenciado por trabalhos comerciais de alguns fotógrafos, dentro da moda e publicidade, tais como David Lachapelle, Jill Greenberg, Mario Testino, Mondino, entre muitos outros, e também pelos grandes mestres, Henri Cartier Bresson, Helmut Newton, Yousuf Karsh, Newman Arnold...

W - No seu portfólio existem vários tipos de fotografia, qual é aquela que mais lhe agrada e porquê?
TX - Acho que principalmente prefiro fotografar algo com vida, gosto de conhecer pessoas novas, aprecio muito mais o processo em si do que propriamente o resultado, onde se aprende muito mais. Daí que retrato, seja de pessoas ou seja de animais, num ambiente controlado de estúdio ou mais jornalístico, talvez seja o que me dá mais gozo fazer. Também gosto de contar histórias e criar realidades em imagens mais conceptuais.

W - Normalmente, que tipo de material e assistência necessita numa das suas sessões fotográficas?
TX - De um modo geral trabalho muito com luz artificial (flashes normalmente), por ser muito perfeccionista e gostar de controlar tudo o que se vê na imagem final. As minhas equipas variam conforme a dimensão da produção, posso ser apenas eu e um modelo, ou como podem ser vários modelos, assistentes de luz, directores criativos, etc. O necessário para o trabalho sair o melhor possível e ser feito da forma mais prática.

W - Sabemos que faz parte do gabinete de design gráfico “Sente Design” em Aveiro, do qual é co-fundador. Consegue ligar o design à sua fotografia?
TX - Sim, foi aliás assim que comecei a dar mais atenção à fotografia, a partir dos trabalhos de design que fazia e sentir a necessidade de criar e controlar as imagens complementares que necessitava usar. Para mim o design é muito mais que uma maneira de vender da forma “mais bonita” um produto, é uma maneira de viver. Ensina-nos a ver o mundo com um olhar mais atento, a estruturar o pensamento, a trabalhar na lógica das coisas. Desta forma aprende-se que compreendendo melhor o objecto de estudo, com base em conhecimentos em quase todas as áreas, se conseguem soluções vencedoras. Não é no entanto o que mais faço agora, mas continuo a actividade, que na maior parte das vezes é a junção com a fotografia num trabalho.

W - Tem mais alguma “paixão” para além da fotografia e design?
TX - Muitas mais, como a música e banda desenhada, mas a principal é sem dúvida o cinema. É o que me faz sonhar e onde muitas vezes ganho inspiração para projectos pessoais. Em relação a esta arte, lamentavelmente vivemos em Portugal. Nesta área em especial é muito difícil dar os primeiros passos por cá, da forma como a indústria funciona. Tenho tido a sorte de por vezes ser chamado a trabalhar em equipas de produção de spots publicitários, o que me faz estar mais perto do meio.

W - Recentemente participou numa curta-metragem chamada “Breu”. Fale-nos um pouco sobre essa experiência.
TX - Não foi apenas uma participação e tão pouco recente. É uma curta-metragem feita por um conjunto de colaborações de pessoas das mais diversas áreas. A fotografia principal foi feita em duas semanas em 2005, por diversos motivos a pós-produção se prolongou até 2009 e só agora no início de 2010 a curta ficou pronta. O Breu é escrito e realizado pelo meu grande amigo Jerónimo Rocha, e eu sou co-autor e produtor, ainda com passagem pela pele de actor, desprovido de qualquer pretensão em seguir carreira na área (risos), respeito demasiado os actores para isso. O Breu é um conto sobre o medo do escuro, feito a partir da grande paixão que todos temos pelo cinema. Estamos agora na fase de envio para festivais e qualquer convite para exibição é bem-vindo. Quem quiser saber mais visite: www.degredo.com.

W - Para finalizar, alguma mensagem que queira deixar aos leitores, fotógrafos, promotoras, revistas…?
TX - Creio que a melhor coisa que possa dizer é incentivar todos a respeitarem-se uns aos outros, darem valor ao profissionalismo e ao que de bom se faz por cá. Bons trabalhos e muita criatividade. Muito obrigado à Whisper pelo convite.


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Entrevista #18- com Uxu Kalhus


Uxu Kalhus




Uxu Kalhus são uma banda nacional de folk
ligada à terra, dança e tradições da nossa música.
Conheça melhor esta banda que nos enche de folia a
cada nota que faz soar.




Whisper - Contem-nos um pouco sobre a história dos Uxu Kalhus.
Paulo Pereira - Eu dava aulas de dança em Évora em 1998 e conheci a Celina; tinha acabado de deixar os Bailia, e formámos um duo que se chamava CPPP (Celina Piedade + Paulo Pereira). O Repertório era essencialmente música dita Europeia. Rapidamente o duo passou a trio (com o Winga) e mais tarde, em 2000, houve um convite para ir a Gennetines fazer um baile Português. Nesse momento juntou-se à banda o Vasco Casais, porque achávamos importante ter cordas no grupo. Portanto, na realidade, os fundadores d’Uxu Kalhus foram 4: Paulo Pereira, Celina da Piedade, Winga e Vasco Casais. Foi nesse ano que efectivamente nasceram Uxu Kalhus, baptizados pela Margarida Moura, que também foi a França para ensinar as danças. Mais tarde entrou o Eddy (2002) e depois o Miguel Casais (bateria) e Hugo Menezes (percussão). O Hugo entretanto saiu, e foi este sexteto que gravou em 2004-2006 a Revolta dos Badalos. A Joana Negrão por um breve período de tempo também fez parte da banda, e desde 2006 saíram o Vasco Casais, o Miguel Casais, o Winga e agora a Celina, sempre por incompatibilidade com outros projectos (Dazkarieh, DZRT, Blasted Mechanism e Rodrigo Leão). Em 2006 (final) entrou o Tó Zé (guitarras) e o Luís Salgado (bateria) e os mais recentes membros da banda são o André Lourenço (teclas) e Joana MArgaça (voz), que entraram em 2009.
To Zé - Eu sou um “cristão-novo”. Conheço o grupo há muito tempo, mas só fui “evangelizado” em 2006, com um convite surreal por meio telefónico e em manhã submersa, tão ao jeito dos membros da banda com filhos madrugadores… Conhecia o Eddy dos tempos das muitas e variadas bandas de garagem da fervilhante “cena eborense” dos anos 90, em que militámos ambos activamente. Conhecia a Celina das muitas músicas onde andava e conhecia o Paulo pela Pé de Xumbo (na altura, trabalhava na Div. de Cultura do Município de Évora e havia uma relação de proximidade com a Associação, que desenvolvia já uma actividade importante na cidade e no concelho). Conhecia também o Vasco, mais até pelos Dazkarieh e porque me apareceu numa bela tarde solarenga na extinta “Fábrica da Música” com uma gravação dos Daz.; sabia quem era o Nuno, ainda antes da metamorfose para Winga (tínhamo-nos cruzado algumas vezes, quase sempre em situações improváveis) e conhecia o Hugo (Mandinga) pelo seu trabalho em diversos projectos. Em 2005, se não estou em erro, a PédeXumbo organizou uma residência de Músicos na Herdade da Marmeleira (Évoramonte) e eu, vindo do funk-rock-experimental-o-qualquer-coisa, meti férias da função pública e tive oportunidade de trabalhar com um grupo de músicos “a sério” e filiados na folk e no movimento das danças, entre eles estavam os Uxu.… do outro lado da linha, diziam-me que a banda estava num momento de mudança e perguntavam-me se queria participar. Respondi que sim, sem saber bem ao que ia. Mais tarde, consciencializei o processo e perguntei-me como é que um pseudo-músico-dos-tradicionais-3-acordes-do-rock podia “sacar” tantos temas a “mil à hora” e em tão pouco tempo. Liguei de volta. Ninguém atendeu. Fui conhecer os temas à Nazaré, em agradável sábado de sol do Oeste e fui ensaiar à Reca (onde se juntou o companheiro Luís Salgado, Bateria). Primeiro e único ensaio antes da digressão da “Revolta dos Badalos Tour”.

W - Como é que caracterizam o vosso som?
PP - Partimos do baile como fonte inspiradora; mas não consideramos que temos que ter um conhecimento quase científico das coisas para poder mexer nelas; por isso compusemos danças Portuguesas como o Vira ou as Saias, ou danças “Europeias” como o círculo ou a mazurca; não temos qualquer problema neste processo: somos músicos que se servem das danças como material para moldar um repertório inovador e original. Não temos a pretensão de ter que ter um doutoramento em viras antes de podermos compor um. A música popular sempre foi do povo. O que nós fazemos é perpetuar essa tradição, e dar vida à música popular.
TZ - O repertório da tradição oral e/ou outro material vem ter connosco e depois fica … ou não. É preciso sentir na pele. Há uma selecção natural que acaba por acontecer sem que façamos “pressing” nesse sentido. Quando estamos juntos tocamos! Seja onde for: muitos temas aparecem nos testes de som ou à mesa de um café ou nas intermináveis viagens de carrinha (quando a dita se digna a funcionar). Por outro lado, fazemos música original para formas definidas (como o corridinho, as saias, etc …) e brincamos às coreografias, contribuindo assim para aumentar o repertório de música e dança de inspiração portuguesa. Somos gente e músicos do nosso tempo, com acessos e exclusões característicos dos lugares onde vivemos (e ainda das tradicionais condições económicas, sociais, culturais e outras acabadas em ais). O que propomos é um olhar actual para a nossa música e dança, entendendo o baile enquanto fenómeno social total e totalizante, por isso nos filiamos no NBP [Novo Baile Português].

W - Os elementos da banda provêem tanto de vários pontos do país como de vários estilos musicais. Como conseguem lidar com esses factores?

PP - Com total liberdade; ou seja, cada um expressa-se a 100% (ou quase na banda). É essa a nossa riqueza por isso não tem sentido mudar essa filosofia.
TZ - Uxu Kalhus vivem justamente dessa diversidade. A banda é a soma das partes que, muitas vezes, supera o todo. Orgulhamo-nos de ter uma secção barroca a tocar com a “dark force” do jazz-metal, com inputs de funk-rock a soar a arfro-swing de tradição europeia. Isto é música portuguesa… de fusão.

W - O que mudou com a saída de Celina da Piedade e a entrada de Joana Margaça?
PP - Perdemos a Celina, ganhámos em banda. Continuamos todos amigos, como também acontece com o Vasco Casais ou com o Winga; mas para chegarmos mais longe, amadurecermos como banda e termos disponibilidade para tocar sempre que nos solicitam, esta era a única solução. O importante é que a amizade continua e haverá muitas oportunidades para tocar com a Celina, dentro d’Uxu Kalhus (Uxu Big Lula, etc.) nas jams, em duos, trios e o que mais for. Para fora, tenho a certeza que o que fazemos ao vivo irá cativar as pessoas da mesma forma. E neste momento, pelo elevado número de solicitações de promotores de espectáculos, a solução encontrada parece-nos ser a mais acertada para podermos evoluir como grupo e podermos ser músicos profissionais.
TZ - Uma banda é um colectivo de pessoas, não depende, pelo menos em teoria, da inspiração e transpiração de um(a) só. Como colectivo, trabalhamos todos para o todo. A saída de um elemento, seja mais carismático ou não, é sempre um momento de mudança e pode ser encarado como um “handicap” ou como uma oportunidade de renovação (qualquer semelhança com a crise económica é pura coincidência). A Celina foi fundadora do grupo (com o Paulo), é uma grande “Música” (assim, no feminino), para além de uma amiga. Como tal, é um elemento incontornável na história da banda. Mas ninguém é insubstituível e, com a saída da Celina, Uxu Kalhus renovaram-se e ganharam um respeitável cravista/baixista e uma voz quente na linha da frente. Somos 7: André – teclas e vozes, Paulo – flautas e vozes, Tó-Zé – Guitarras e vozes, Eddy – Baixo e vozes, Luís – bateria e percussões, Joana – Voz principal e Samuel – Som e vozes surpresa. Mas ninguém sai verdadeiramente d’Uxu Kalhus, somos uma grande família e “uma vez badalo, para sempre badalo!” A prová-lo, está a ficha técnica do último CD, onde figuram actuais e antigos membros oficiais da banda, todos próximos, embora a militar activamente em diferentes projectos. Como todos os que passaram por aqui, estou certo que nos encontraremos com a Celina sempre que possível e quando isso acontecer far-se-á uma festa, a celebração do encontro dos badalos!

W - Falem-nos um pouco sobre o vosso último trabalho intitulado “Transumâncias Groove”.

PP - Os arranjos foram construídos em ensaios, ao vivo e em estúdio. Correspondem a uma forma muito particular que temos de trabalhar, onde cada um se expressa com total liberdade. O resultado está aí à vista e a sonoridade do CD corresponde a um colectivo muito forte. Neste CD tivemos também a preciosa ajuda de Marco Jung, que produziu e melhorou alguns temas, sem nunca interferir com a “linha editorial” do grupo; pelo contrário, potenciou as qualidades e eliminou defeitos. Grande Marco! O CD leva-nos numa viagem metafórica concretizada nos capítulos em que dividimos o alinhamento: Transumâncias extremas, com a Itália e Índia no mesmo tema, a saia da Carolina do extremo de Portugal, as mazurcas que mesclam países e o círculo juntando Trás-os-montes, o passado e o presente. Geografias marcadas com as Saias do Alentejo, Cabo Verde e a Chapelloise (com Alentejo, Trance, e América Latina), porque são ritmos e danças e culturas muito marcadas, que se distinguem pela sua originalidade muito forte. Trilhos da Lusofonia, com a reinvenção do que é Português em primeiro plano, como o vira, a valsa (moda algarvia), o corridinho e a carvalhesa; mesmo a Bónus Track encaixa neste capítulo, com o Rap em português a ser o mais moderno trilho da nossa Lusofonia.
TZ - Ao contrário de algumas bandas, quando fomos para estúdio tínhamos apenas uma ideia do que queríamos fazer. Havia já algum material original e versões de temas (como a Saia da Carolina) que foram surgindo nos ensaios, nos testes de som e em outros lugares igualmente estranhos onde nos encontramos. O estúdio é uma excelente oportunidade para experimentar e exercer a liberdade criativa. Foi isso que fizemos. Criámos as estruturas base e cada um fez praticamente aquilo que lhe ditava a sua consciência na altura. Salvo raras excepções, gravámos a bateria e o baixo (conforme gravação de ensaio em tarde solarenga na casa do Paulo, entre choro e riso de crianças e uma vista fabulosa sobre a Serra da Arada) e os temas foram ganhando forma a partir daí. Gravámos no Marduc Studio, Trabalhia – Caldas da Rainha, um espaço relativamente isolado, bem apetrechado, com cozinha, sem relógio de parede e um “homem dos botões” que acabou por ser mais um elemento da banda em gravação, o Marco Jung – excelente músico, técnico e membro oficial da família Uxu! Os arranjos também lhe pertencem, foi parte muito activa no processo. Outro factor importante tem a ver com os músicos convidados, que foram preenchendo espaços e contribuindo para o resultado final do disco. Sabíamos os ambientes sonoros que queríamos para cada um dos temas, conhecíamos as pessoas indicadas para o efeito e, que casualidade, a esmagadora maioria fazia parte do nosso grupo de amigos… Reunido o material de estúdio, havia necessidade de dar uma ordem ao disco. À música X deverá corresponder a faixa Y. Curiosamente, a ordem do disco foi praticamente consensual entre os membros da banda e dessa ordem saíram linhas de força que agrupámos por capítulos. O capítulo 1 [Transumâncias Extremas] reúne uma Tammurriata da Serra do Caldeirão, uma Saia da Carolina, um Círculo e uma suite de Mazurkas. Músicas e danças de Latitudes e longitudes extremas anunciam a partida e dão início a este baile improvável. O capítulo 2 [geografias marcadas] propõe uma passagem por geografias diversas, nem sempre horizontais, com danças de pares e de grupo, para ajudar no caminho e desfrutar das paisagens marcadas por rios, mares, ilhas, desertos e pastagens. Na mochila, umas saias do Manuel do Rio, uma suite de funanás e uma chapelloise ibérica arrumam-se com o farnel do viajante. No capítulo 3 [Trilhos da Lusofonia], o mais extenso, agrupam-se uma suite de valsas populares e eruditas em co-existência pacífica e com contornos de cumplicidade, um corridinho da bela serra do Arestal, um “energizante” Vira do açúcar, um momento de reflexão para descansar os pés quentes/dormentes e exercitar a mente em conversa sobre estas questões da viagem e ainda uma carvalhesa com gaita transmontana, desafinada por natureza, a dar por finda a transumância por latitudes e longitudes improváveis. No encore, momento ainda para uma fusão extrema, com o hip hop a juntar-se ao folk na leitura da urbanidade, reforçando a ideia de que este último, o Folk, “pode ser actual e contemporâneo – não necessariamente delicodoce!”

W - Quais são os grandes pontos de divergência entre o “A Revolta dos Badalos” e o “Transumâncias Groove”?

PP - Há duas grandes diferenças: 1ª diferença, na revolta fizemos arranjos de danças portuguesas tradicionais, neste CD compusemos danças Portuguesas; a 2ª diferença é que temos duas danças de Grupo Folk (círculo e Chappeloise), o que não existia no 1º CD. De resto, a nossa postura é a mesma, e no fundo o que fazemos é aprofundar o trabalho começado com a revolta. Claro que a receita terá sempre a mesma génese criativa: o baile, os ritmos de danças, a lógica do movimento dos corpos é a nossa matéria prima para a construção das músicas.
TZ - Uxu Kalhus são um organismo vivo, em constante mutação, e na procura de caminhos para a construção de uma identidade sonora dinâmica e “desempoeirada”. A banda vive de quem a habita e de quem a visita, sem pretensão de criar receitas, por mais abertas que sejam, como bases para uma qualquer sopa de legumes. Não creio que o Transumâncias repita a mesma “fórmula” do primeiro disco, na medida em que há novos intervenientes no processo, novas histórias de permeio e mesmo métodos de trabalho diferentes. No entanto, há uma filosofia de grupo e desse ponto de vista, o resultado final acaba por espelhar aquilo que pensamos e a maneira como lemos o que nos rodeia. Se há um fio condutor entre o primeiro e o segundo disco, que aponte no sentido da construção de uma sonoridade própria e característica do grupo, isso deixa-nos naturalmente felizes e satisfeitos com o nosso trabalho.

W - Como é que caracterizam um concerto vosso? Falem-nos um pouco sobre essa experiência.
TZ - Um concerto de Uxu Kalhus é sempre uma experiência única para a banda e para o público. Não fazemos alinhamentos em toalhas de restaurante nem, muito menos, os trazemos de casa já imprimidos em A4 a bold. Tocamos o que nos apetece, no momento em que nos apetece. A esta filosofia, juntamos improvisação qb e uma boa dose de energia. Os espaços onde tocamos acabam por ter um papel, por vezes, relevante na direcção de um espectáculo nosso. Um auditório é diferente de uma sala sem lugares sentados ou de um recinto de festival ao ar livre, por exemplo. Os espectáculos acabam por ser diferentes. Num auditório, andamos mais próximos de um concerto e, nos outros espaços, de um espectáculo onde a dança tende a ganhar maior importância, será qualquer coisa como um concerto/baile. Gostamos de ambos os formatos, têm sabores diferentes, mas sempre boa energia. É claro que nada disto é estático, em várias ocasiões, já assistimos ao transformar de um concerto para gente sentada num grande baile entre cadeiras (riso). Outro aspecto importante acontece quando temos oportunidade de fazer um workshop de dança antes do concerto, ou concerto/baile. Faz parte da filosofia do grupo fazer estes workshops, dirigidos a todas as faixas etárias, níveis técnicos e dimensões de barriga. Para além de deixarmos a semente do baile, criamos uma relação “a priori” com o público, que nos permite um diálogo mais fluido durante os espectáculos.

W - Onde encontraram o vosso melhor público?
TZ - Em qualquer lugar que reúna uma moldura humana disponível para ouvir e sentir a música que produzimos e que permita estabelecer uma atmosfera de diálogo. Isto pode acontecer, literalmente, em qualquer lugar. Temos tido experiências muito interessantes em latitudes tão distintas e distantes como Macau, Alemanha ou Trás-os-Montes.

W - Têm projectos para o futuro que queiram partilhar connosco?
TZ - Em 2010, a banda comemora o seu 10º aniversário. Uxu Kalhus nasceram com o milénio. Pensamos que está na altura de fazer um registo ao vivo, em jeito de balanço, mas também com os olhos postos no futuro. Será um disco 50/50, com uma síntese de temas antigos e novos temas, que estamos a trabalhar e a descobrir agora. Queremos continuar na senda da Europa e levar estas Transumâncias [Transumâncias Groove, Uxu Kalhus - 2009] ainda a outras paragens. Há muita estrada para andar e o caminho faz-se caminhando. De resto, queremos continuar a descobrir e reinventar a música portuguesa e divertir-nos imenso com isso.

W - Alguma mensagem que queiram aproveitar para deixar aos nossos leitores, aos vossos seguidores, ou às promotoras nacionais, etc?
TZ - Aos leitores da revista, que continuem a ler e que tenham sempre uma atitude crítica sobre tudo o que lêem. Que escutem música com a mesma atitude. Aos seguidores, se existem, que continuem a aparecer para fazer a festa e que tragam amigos (as) também. Às promotoras nacionais, que tenham presente que a única maneira de sobreviver no mundo global é com identidade. Apostem na música portuguesa e ajudem-nos a todos a redescobri-la e reinventá-la.

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